Não é teimosia: existe um motivo para sua criança preferir biscoitos
- 8 de mai.
- 2 min de leitura
“Muito provavelmente seu filho não prefere o biscoito apenas pelo sabor.”

Essa frase costuma surpreender muitas famílias. Afinal, é comum pensar que a criança escolhe o biscoito apenas porque ele é “mais gostoso”. Mas, quando observamos o comportamento alimentar infantil de forma mais ampla, percebemos que existem outros fatores importantes envolvidos, principalmente sensoriais, emocionais e neurológicos.
O biscoito é previsível. A fruta não.
Imagine abrir um pacote de biscoito hoje e outro daqui a um mês.
Muito provavelmente eles terão:
o mesmo cheiro;
a mesma textura;
a mesma cor;
o mesmo formato;
o mesmo sabor.
Essa previsibilidade traz segurança para o cérebro da criança.
Já as frutas são naturalmente variáveis:
Uma banana pode estar mais doce hoje e menos madura amanhã. A manga pode ter fibras diferentes. O morango pode vir mais ácido. A textura muda, o cheiro muda, a temperatura muda, até a aparência muda.
O cérebro infantil busca segurança alimentar.
Na infância, o cérebro ainda está aprendendo sobre os alimentos e construindo repertório sensorial. Alimentos ultraprocessados, como biscoitos, costumam ser desenvolvidos justamente para manter um padrão extremamente estável de sabor, aparência e textura.
Isso reduz o “esforço sensorial” da criança, trazendo previsibilidade e conforto.
Já os alimentos naturais exigem mais exploração:
mastigação diferente;
percepção de fibras;
mudanças de sabor;
contato com sementes, cascas e variações naturais.
E isso não significa que a criança é “difícil” ou “mal acostumada”.
Quando falamos de crianças neuroatípicas, isso pode ser ainda mais intenso
Em crianças neurodivergentes — como muitas crianças dentro do espectro autista (TEA), TDAH ou com alterações sensoriais — a percepção dos estímulos pode acontecer de forma ampliada.
Texturas, cheiros, temperaturas e pequenas mudanças nos alimentos podem causar desconforto real.
Eu sempre exemplifico para os pais: "é como se estivéssemos mastigando algo cheio de espinhos."
Por isso, alimentos previsíveis acabam funcionando como uma “zona segura alimentar”.
Nesses casos, insistir, forçar ou pressionar a criança a comer frutas pode aumentar ainda mais a recusa alimentar e gerar ansiedade nas refeições.
Então devemos retirar os biscoitos?
O caminho normalmente não é a proibição extrema.
O mais importante é:
ampliar experiências alimentares com segurança;
respeitar o tempo da criança;
reduzir pressão durante as refeições;
trabalhar exposição frequente aos alimentos naturais;
incluir a criança no contato com os alimentos;
observar possíveis questões sensoriais envolvidas.
Muitas vezes, a construção da aceitação alimentar acontece primeiro pelo vínculo, pela confiança e pela previsibilidade do ambiente — e não apenas pela insistência no alimento.
A criança aprende a comer aos poucos
Aceitar frutas, verduras e diferentes preparações é uma habilidade construída ao longo do desenvolvimento.
Algumas crianças precisarão de mais tempo, mais exposição e mais acolhimento nesse processo.
E tudo bem.
O objetivo não é criar uma relação de medo ou obrigação com a comida, mas sim construir segurança alimentar, autonomia e uma boa relação com o comer.
Se você sente que as refeições estão cada vez mais difíceis, que sua criança possui uma alimentação muito restrita ou que existe sofrimento em torno da comida, o acompanhamento nutricional pode ajudar a tornar esse processo mais leve e possível para toda a família.
Na consulta, buscamos compreender não apenas o que a criança come, mas também os aspectos sensoriais, emocionais e comportamentais envolvidos na alimentação, sempre respeitando o desenvolvimento, o tempo e a individualidade de cada criança.




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